Gravidez inspira empreendedora a criar marca de fraldas ecológicas com estampas africanas
Quando descobriu que estava grávida do primeiro filho, Ana Paula Lins, 35 anos, começou a procurar fraldas ecológicas e outros produtos sustentáveis para a maternidade no Recife (PE). Encontrou poucas opções, quase todas concentradas nas regiões Sul e Sudeste e sem representatividade negra. Incomodada com a falta de alternativas, fundou a Afromaterna, marca de fraldas ecológicas com estampas africanas criada em 2018.
Formada em Serviço Social, a empreendedora passou um ano estudando tecidos, modelagens e posicionamento da marca antes de começar as vendas, em 2019. Com um investimento inicial de R$ 5 mil, conciliou a produção das fraldas com o trabalho formal e a maternidade. Hoje, vende peças para diferentes estados do país, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro.
Durante a fase de pesquisa, Lins comprou uma fralda ecológica produzida por uma marca do Sul do país e descosturou a peça para entender a lógica de fabricação. Na época, também conversou com a mãe, que é costureira, sobre como ela cuidava dos filhos quando eram pequenos. A resposta remeteu a uma solução já conhecida por gerações anteriores: as fraldas de pano.
“Quando eu tirei os moldes de tudo isso, fiquei pensando como fazer algo que fosse a minha identidade e remetesse à minha história”, relembra.
Foi nos tecidos africanos que acumulava havia anos que encontrou o caminho para dar identidade à marca. Como participava de palestras sobre movimento negro e feminismo negro, costumava receber os materiais como presente e decidiu incorporá-los às fraldas. Foi daí que surgiu o conceito da marca.
A empreendedora trabalha com tecidos de algodão importados de Benin e Senegal em edições limitadas. Vendidas por R$ 70, as peças contam com 37 botões ajustáveis para acompanhar o crescimento da criança ao longo dos primeiros anos de vida.
Das feiras aos prêmios
Em dezembro de 2020, Lins participou da primeira feira de forma presencial e vendeu cerca de 100 fraldas em um único dia. A experiência foi um divisor de águas. “Foi quando eu me vi como empreendedora”, afirma.
A produção acontecia nos fins de semana e durante a noite, enquanto conciliava a criação do negócio com o emprego formal e os cuidados com o filho Caetano. Em 2022, contratou uma costureira para ajudar na fabricação e viveu um dos anos mais importantes da trajetória da empresa.
No mesmo período, venceu um edital do programa Black Money e recebeu um prêmio de R$ 7 mil, recurso que ajudou a ampliar o estoque. Também ganhou visibilidade em reportagens e conquistou o segundo lugar no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria MEI em 2024.
Apesar dos reconhecimentos, a Afromaterna ainda não é a principal fonte de renda da empreendedora. Lins concilia a gestão do negócio com um emprego CLT em uma ONG, enquanto busca ampliar a produção e as vendas da marca.
Atualmente, a empreendedora comercializa entre 10 e 15 fraldas por mês, com faturamento mensal próximo de R$ 5 mil. Em 2025, a receita da empresa foi de cerca de R$ 50 mil, e a expectativa é alcançar R$ 80 mil neste ano.
O WhatsApp concentra a maior parte das vendas, enquanto o Instagram funciona como vitrine da marca. Após o nascimento da filha caçula, Olga, hoje com dois anos, a recifense reduziu a participação em feiras presenciais.
Além das vendas online, a empreendedora participa de chás de bebê, estratégia que ajuda a impulsionar o negócio por meio da indicação de clientes.
“Não é a venda por si só, é para as pessoas terem consciência ambiental”, afirma.
Sustentabilidade além do produto
A preocupação com o meio ambiente também aparece no processo de produção. Segundo a fundadora, cinco metros de tecido rendem cerca de 50 fraldas. Os retalhos que sobram são reaproveitados na confecção de abaiomis, bonecas artesanais de origem africana.
As estampas mais procuradas pelos consumidores são as mais coloridas e vibrantes.
Para os próximos anos, a empreendedora pretende ampliar o portfólio da Afromaterna com produtos voltados à maternidade, como absorventes ecológicos, além de levar a marca para lojas físicas especializadas em produtos para bebês em Recife.
A sustentabilidade faz parte da rotina de Lins. No dia a dia, ela prioriza compras em brechós e de pequenos empreendedores. “Eu prefiro comprar daquela empreendedora que eu sei que é mais caro, mas que tem uma história e resistência ali, e sei que tem uma mãe sonhando em só viver daquilo, porque eu sou essa mãe também”.
Fonte: matéria publicada originalmente em pegn. Reproduzimos o conteúdo aqui, com crédito ao veículo de origem.
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