Estratégia Empresarial
Leme capta R$ 1,2 milhão para ajudar escolas públicas a reduzir desigualdades de aprendizagem
A edtech Leme, focada em soluções para redes públicas de ensino, recebeu um aporte pré-seed de R$ 1,2 milhão liderado pela Potencia Ventures, fundo global de investimento de impacto. A startup, que atua com secretarias municipais de educação para identificar desigualdades de aprendizagem entre estudantes, pretende usar os recursos para ampliar a operação de cerca de 20 para 100 municípios até o fim de 2027, fortalecendo sua equipe pedagógica, ampliando a infraestrutura tecnológica e acelerando a expansão comercial para redes municipais de médio e grande porte.
Fundada em 2023 por Isaac Barbieri, Fernando Pinheiro e Thomaz Albuquerque, a empresa já impactou mais de 100 mil alunos e capacitou mais de 2 mil educadores. Atualmente, atende redes municipais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Sergipe.
Como surgiu
A ideia da startup nasceu da experiência de Barbieri, de 28 anos, como professor de Matemática e Física em cursinhos pré-vestibulares. Formado em Engenharia Mecânica, ele passou a se interessar pela educação pública após participar de projetos educacionais durante a graduação. Em sala de aula, percebeu que estudantes da mesma turma chegavam com níveis de aprendizagem muito diferentes, muitas vezes carregando defasagens acumuladas ao longo dos anos.
Na época, Barbieri também administrava um negócio no varejo de moda voltado à representatividade e inclusão. Em 2023, decidiu encerrar a operação para criar uma empresa focada em impacto social na educação. Com recursos próprios, se uniu a Pinheiro, 28, psicólogo que já havia empreendido em iniciativas educacionais, para desenvolver os primeiros protótipos da plataforma.
Os primeiros testes foram realizados dentro de uma escola pública de Jaboticabal (SP), onde os empreendedores passaram dias acompanhando a rotina de gestores e professores. A primeira versão da ferramenta tinha foco em apoiar processos administrativos das escolas e auxiliar secretarias municipais na alocação de recursos. Com o tempo, o produto evoluiu para um sistema capaz de cruzar dados pedagógicos e socioeconômicos para identificar quais grupos apresentam maiores dificuldades de aprendizagem.
Em 2025, a entrada de Albuquerque, 33, ex-professor do programa Ensina Brasil, ajudou a estruturar a metodologia pedagógica utilizada atualmente. A plataforma passou a acompanhar a evolução dos estudantes ao longo do ano e fornecer atividades direcionadas aos professores para recompor conteúdos que ficaram para trás.
Hoje, a tecnologia da Leme cruza dados de aprendizagem com informações como raça e nível socioeconômico dos estudantes. Com base nesse diagnóstico, a ferramenta gera trilhas de aprendizagem e exercícios específicos para apoiar professores e gestores na redução das desigualdades educacionais.
Desde 2023, o governo federal passou a premiar redes de ensino que avançam em indicadores de equidade educacional por meio do VAAR (Valor Aluno Ano Resultado), mecanismo do Fundeb que distribui recursos adicionais às prefeituras. A proposta da empresa é ajudar os municípios a melhorar esses indicadores e, consequentemente, ampliar o acesso a verbas federais.
De acordo com a empresa, a atuação da startup já contribuiu para gerar R$ 70 milhões em recursos federais adicionais para 21 redes municipais. Em Propriá (SE), atendida desde o início de 2025, o município recebeu R$ 1,2 milhão em recursos extras, posteriormente reinvestidos em melhorias na infraestrutura escolar.
A relação entre a startup e a Potencia Ventures começou em 2025, quando a Leme foi selecionada para participar do programa de aceleração Potencia UP. Segundo Itali Collini, líder da Potencia Ventures no Brasil, o investimento foi motivado pela capacidade da empresa de alinhar os incentivos das secretarias municipais com a redução das desigualdades educacionais, além da velocidade de execução demonstrada pelos fundadores ao longo do programa.
O aporte foi estruturado por meio de um investimento conversível. Além dos recursos financeiros, a Potencia pretende apoiar a startup na construção de governança, no acompanhamento de métricas de impacto e na preparação da empresa para futuras rodadas de investimento.
Para o CEO, a escolha do fundo foi motivada pelo alinhamento de propósito entre as duas organizações. “O mercado de investimento hoje olha muito mais para o retorno financeiro do que para o impacto social. Quando aprofundamos as conversas com a Potencia, ficou muito claro que havia um alinhamento genuíno entre resultado financeiro e impacto”, afirma.
Modelo de negócio e crescimento
A Leme opera no modelo SaaS com contratos anuais e cobranças mensais que variam de acordo com o número de estudantes atendidos e o tamanho da rede municipal. A startup atua exclusivamente no mercado B2G, com foco em secretarias municipais de educação.
Após registrar crescimento de 360% em 2025, a empresa projeta expandir o faturamento em 600% em 2026. Segundo Barbieri, a expectativa é impulsionada pela profissionalização da operação, pelo amadurecimento dos processos e pela evolução dos produtos desenvolvidos pela startup.
Segundo Collini, o desempenho da startup será acompanhado não apenas pela evolução da receita, mas também pelo aumento do número de escolas e estudantes atendidos e pelos resultados obtidos na redução das desigualdades de aprendizagem.
Resultados
A metodologia da Leme acumula resultados práticos significativos. Em Pilar do Sul (SP), a proficiência média da rede municipal cresceu 26% em apenas quatro meses, sendo que os maiores ganhos vieram dos estudantes de menor renda e de alunos pretos, pardos e indígenas.
A plataforma alcança mais de 90% de engajamento semanal recorrente entre os docentes das redes contratantes. O desempenho rendeu à startup reconhecimentos como o Top 5 no Bndes Garagem, na categoria negócio de impacto, e o primeiro lugar na aceleração da Artemisia.
Expansão
Com o aporte, a startup pretende reforçar as equipes pedagógica e comercial, além de ampliar a infraestrutura tecnológica. A estratégia de expansão prevê crescimento principalmente em regiões próximas às redes já atendidas, com foco inicial em Minas Gerais e no Nordeste, onde a empresa pretende replicar casos como o de Propriá.
Planos futuros
No longo prazo, o objetivo da empresa vai além da expansão da operação. Para Barbieri, o desafio é ampliar o alcance da tecnologia sem perder de vista a missão que deu origem ao negócio.
“A gente quer continuar pensando nas melhores maneiras de fazer com que cada aluno receba o que precisa para que todos tenham as mesmas oportunidades”, afirma.
Fonte: matéria publicada originalmente em pegn. Reproduzimos o conteúdo aqui, com crédito ao veículo de origem.
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