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Ex-comissária de bordo viraliza ao recriar vestidos históricos e reúne mais de 3 milhões de seguidores

Asta Darling, de 36 anos, passou seis anos viajando pelo mundo como comissária de bordo antes de transformar sua paixão por roupas históricas em conteúdo para as redes sociais. Durante a pandemia de covid-19, em 2020, ela começou a publicar vídeos de suas criações no TikTok. O trabalho viralizou por volta do terceiro vídeo, e a conta ultrapassou 3 milhões de seguidores, que hoje acompanham suas recriações de figurinos de época e participam das decisões dos projetos.

Nascida em Singapura, Darling se interessou por moda histórica ainda na infância, por volta dos 7 anos, depois de conhecer um livro da Cinderela e o jogo de computador Magic Wardrobe. Conforme crescia, passou a estudar roupas retratadas em pinturas para identificar os períodos históricos a que pertenciam. “Eu conseguia estimar a idade delas com uma margem de erro de alguns anos, com base nas roupas que usavam”, disse à revista People, que publicou a entrevista exclusiva.

O interesse levou Darling ao Wimbledon College of Art, em Londres, onde estudou interpretação de figurinos para teatro e cinema. Durante a graduação, ela visitava museus e arquivos para examinar peças antigas e aprender sobre as técnicas usadas na confecção das roupas.

A ideia era construir uma carreira dedicada à pesquisa e à produção de trajes históricos. Ela chegou a considerar a possibilidade de trabalhar como curadora no Museu Victoria and Albert, em Londres. “Eu gostei muito da arte e da história. Estava decidida a fazer trajes históricos”, afirmou.

Depois de se formar, no entanto, Darling teve dificuldade para encontrar oportunidades remuneradas na área. Os estágios não pagos dificultavam sua manutenção financeira, e ela voltou aos Estados Unidos sem saber como transformar o interesse em profissão. Por sugestão da mãe, decidiu trabalhar na aviação.

A carreira como comissária durou seis anos, até a pandemia interromper sua rotina, em 2020. De volta à casa dos pais, no interior do Tennessee, nos Estados Unidos, ela decidiu seguir a sugestão de amigos e publicar suas criações no TikTok, mesmo sem saber se haveria público interessado.

A resposta veio rapidamente. Por volta do terceiro vídeo, o conteúdo começou a viralizar. “Eu pensava: ‘Nossa, então vocês realmente se importam com o que eu faço? Isso é incrível’”, relembrou.

Seguidores participam da criação dos figurinos

Com o crescimento da conta, o TikTok se tornou mais do que uma vitrine para o trabalho de Darling. Os seguidores passaram a sugerir projetos, ajudar a resolver problemas de construção e escolher quais peças ela deveria produzir.

Nos últimos três anos, ela deixou o público votar no figurino que gostaria de ver no Halloween. Uma das ideias mais votadas foi um vestido de lagosta inspirado em uma imagem histórica.

Neste ano, Darling começou a desenvolver a peça. O projeto envolve a impressão de lagostas em 3D, pintura com spray, bordados e testes para encontrar uma forma de fixar os elementos ao vestido. Com a ajuda dos seguidores, ela chegou à solução de usar ímãs, permitindo retirar as lagostas da roupa.

O trabalho, porém, exige tempo. Após cerca de um mês de produção, ela ainda precisava encomendar tinta e materiais para impressão. “Eu sei que todo mundo fica perguntando: ‘Qual a novidade?’. E eu respondo: ‘A novidade é que eu continuo pintando lagostas com spray’”, brincou.

Para Darling, envolver o público torna o processo mais interessante, embora também aumente a pressão para entregar os projetos anunciados. “É uma maneira muito legal de envolver a comunidade em todas as decisões. Então, no final, parece que é a nossa fantasia, não apenas algo que eu fiz, mas algo que fizemos juntos”, disse à People.

A participação dos seguidores também foi importante durante a confecção de um vestido inspirado em Maria Antonieta, que ela usaria em um evento anual em Trianon, na França. A escolha da organza de seda tornou o trabalho mais difícil, e Darling precisou correr para terminar a peça a tempo. “Lembro-me de estar sentada lá, às 2 da manhã, pensando: ‘Por que compartilhei isso no TikTok? Porque as pessoas vão esperar que eu realmente faça e termine’”, contou.

Ela concluiu o figurino costurando durante uma viagem de avião, em um Uber e na manhã do evento. No ano seguinte, voltou a participar da celebração.

Figurinos exigem pesquisa e investimento

Outro projeto que chamou a atenção foi a recriação do vestido de malaquita do filme Frankenstein, da Netflix. Segundo a People, Darling estima ter gastado cerca de US$ 300 (R$ 1.608) no tecido.

O processo exigiu ajustes. Depois de comprar uma organza de seda que não correspondia ao resultado desejado, ela precisou tingir o material para aproximá-lo da aparência da peça original.

O esforço ganhou reconhecimento quando Kate Hawley, figurinista do filme, comentou no vídeo publicado por Darling. “Só esse comentário já me deu forças para continuar”, afirmou.

A produção também coincidiu com um período de luto pela morte de seu cachorro. Darling chegou a questionar se conseguiria concluir o figurino e compartilhou a dificuldade com os seguidores. “Eu estava postando online dizendo: ‘Gente, eu sei que vocês esperam essa fantasia de mim, mas não sei se tenho forças para isso agora. Estou tentando superar isso’”, relembrou.

“Se eu não tivesse minha comunidade do TikTok para me ajudar a superar isso, não sei se teria conseguido. Eu estava sofrendo muito”, disse.

Desde então, a criadora também estabeleceu amizades pela plataforma. Em uma viagem a Auckland, na Nova Zelândia, ela publicou que estava na cidade e recebeu mensagens de seguidores interessados em encontrá-la pessoalmente. “Eu simplesmente postei e disse: ‘Oi, estou em Auckland’, e as pessoas responderam: ‘Eu também. Onde você está?’. É muito louco. É como se o mundo fosse pequeno”, contou.

Criadora quer incentivar outras pessoas a costurar

Além de apresentar os figurinos prontos, Darling procura mostrar as etapas de produção, incluindo os erros e as dificuldades. A intenção é incentivar outras pessoas a experimentar a costura, mesmo sem experiência prévia.

Ela recebe mensagens de seguidores que ganharam máquinas de costura no Natal ou no aniversário e decidiram começar a produzir suas próprias peças. Outros compartilham projetos ou pedem orientações.

“Quando decidi seguir carreira nas mídias sociais, era a única coisa que eu queria fazer. Eu queria despertar essa alegria e inspirar a curiosidade para que as pessoas pegassem uma máquina de costura e percebessem: ‘Ei, eu consigo costurar!’”, afirmou.

Darling também procura combater a ideia de que uma peça precisa ter acabamento perfeito para ser considerada bem-feita. “As pessoas sempre dizem: ‘Nossa, minha costura não é tão caprichada quanto a sua’. Mas a costura dos nossos ancestrais também não era tão caprichada, e a minha também não é”, disse.

Moradora da zona rural do Tennessee, ela conta que precisa dirigir cerca de cinco horas até Atlanta para chegar à loja de tecidos mais próxima. A dificuldade de acesso aos materiais reforçou sua preocupação em reaproveitar tecidos e transformar figurinos antigos em novas criações.

Uma de suas peças favoritas, feita no ano passado, já passou por três versões. Outra, inspirada em um espírito-cadáver, foi reformulada ao longo de quatro anos, com mudanças no visual a cada atualização. “Gosto de comprar o tecido com antecedência e pensar no que vou fazer. Se vou costurar tudo, gosto de alinhavar para poder remover as costuras depois”, explicou.

Ao longo dos anos, Darling estima ter produzido algumas centenas de figurinos, quantidade suficiente para ocupar um depósito. Ela considera vender parte das peças que já não usa.

Pergunta frequente leva a pesquisas sobre hábitos históricos

A pesquisa de Darling vai além da aparência das roupas. Ela estuda as estruturas usadas para dar forma aos vestidos e as camadas de peças que compunham o vestuário em diferentes períodos.

Uma das perguntas que mais recebe dos seguidores é como as mulheres usavam o banheiro com roupas históricas elaboradas. A curiosidade é tão recorrente que a criadora passou a pesquisar os hábitos femininos dos séculos XVII e XVIII. “Por que estamos tão interessados nas crônicas do banheiro?”, brincou.

Para quem deseja começar a produzir figurinos históricos, sua recomendação é escolher primeiro um período específico e estudar as roupas e estruturas características daquela época. Mesmo dentro do século XIX, por exemplo, as peças íntimas e as silhuetas mudaram bastante ao longo das décadas. “Você realmente precisa construir suas bases primeiro. Trata-se basicamente de definir qual década você quer abordar e, em seguida, pesquisar sobre essa década”, aconselhou.

Vestir as peças também exige planejamento. Para um traje do século XVIII usado na festa anual Fête Galante, em Versalhes, na França, Darling utiliza pequenos alfinetes para unir partes da roupa, seguindo técnicas de vestimenta do período. O ajuste pode exigir várias tentativas de vestir, retirar e reposicionar as peças.

O conjunto inclui peruca, espartilho, anáguas, meias, sapatos e ligas. O processo pode ser cansativo, especialmente quando ela precisa ajustar todos os elementos até chegar ao resultado desejado.

Precisão histórica e liberdade criativa

Darling também acompanha a maneira como o figurino histórico é representado no cinema e na televisão. Para ela, o nível de precisão depende da proposta de cada produção.

Uma série como Bridgerton, ambientada na era da Regência, mas com liberdade para criar uma versão própria daquele período, tem objetivos diferentes dos de uma produção comprometida com a reprodução fiel das roupas históricas.

Ela elogia os figurinos de Frankenstein e da adaptação mais recente de Razão e Sensibilidade, destacando a importância de os profissionais explicarem quando seguem referências históricas e quando optam por soluções criativas.

Entre os projetos que ainda deseja realizar está um vestido de veludo vermelho usado pela Rainha Má no filme Os Irmãos Grimm, com chifres dourados e joias. Darling já começou a pensar nos materiais e nos custos, mas reconhece que a produção precisará esperar. “É o meu sonho, mas não. Não tenho dinheiro para isso”, disse, rindo.

Apesar da dedicação às roupas de outras épocas, ela não escolheria viver no passado. Para Darling, o presente oferece a liberdade de vestir o que quiser sem precisar seguir as regras sociais e os padrões de vestuário que marcaram outros períodos. “Agora, posso usar o que eu quiser e fazer o que eu quiser, mas não preciso usar isso de verdade”, concluiu.

Fonte: matéria publicada originalmente em pegn. Reproduzimos o conteúdo aqui, com crédito ao veículo de origem.

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